sábado, 29 de setembro de 2012

De "vândalos" a Educadores!!!



Educação é tudo, este é o lema a partir de agora em Rondon do Pará, 
através da mudança das práticas discursivas e governamentais. 


Nos últimos doze anos, os educadores de Rondon do Pará caminharam por duas estradas opostas, excessivamente diferentes, notoriamente distintas. 

Na primeira estrada, a mais longa, durando exatamente uma década - foi marcada por um regime excessivo de greves, praticamente uma por ano, devido a relação não amistosa que evidenciou a gestão municipal com relação ao  sindicato dos profissionais de educação. Um período de abuso de poder, repressão, ditadura e desrespeito e descaso com a educação. 


(luto)




A segunda estrada, trilhada apenas neste últimos dois anos, várias ações marcaram por parte da gestão pública municipal a diferença acima citada, entre muitas, podemos destacar a aprovação do plano de carreira, uma luta incansável do sindicato por mais de  uma década, os reajustes salariais sem a necessidade de paralisação, os abonos salariais, reformas e construção de escolas municipais e estaduais. 


(respeito - alegria)




É inegável a diferença entre os dois modos de governar, em relação às práticas de ontem em relação as de hoje, e não é difícil fazer tal comparação, basta em primeiro lugar "reparar", algo que o escritor lusitano José Saramago deixou bem claro em sua escritura, 




"houve um tempo em que a educação era tratada com descaso e desrespeito,

um tempo que durou dez longos anos, intermináveis, abomináveis, intragáveis,

um tempo por onde a palavra greve era notória,

uma dia elas tomaram e invadiram, com bandeiras e faixas, gritos de guerra,

a própria secretaria de educação,

formou-se um cerco, e quem era sitiante ficou sitiado,

um dia elas se vestiram de luto e caminharam pelas ruas da cidade,

tudo que pediam era justiça, e ela tardava em chegar,

uma dia elas foram para praça da paz e fizeram uma guerra em 'urros e vaias',

foram denominadas de 'vândalos' aos olhos de milhares de almas,

tudo que elas queriam era tudo que tinham a ter por direito:

nada mais do que o repasse salarial, o abono salarial,

o plano de carreira que era um sonho antigo a se tornar pesadelo,

pra falar a verdade nunca houve uma greve

se quer em relação ao bem-estar dos estudantes,

como por exemplo, uma reforma decente, uma sala climatizada,

porém, apesar de certos olhares não 'repararem',

pois pão comido é esquecido,

nunca mais houve greve,

e é lógico que não houve promessa a santos e santas,

bem como, o lobo não virara cordeirinho da noite pro dia,

o que houve fora apenas uma 'mudança' de certas práticas governamentais,

e nem o almuadem seria capaz de não reparar,

quanto mais aquele que apanhou durante uma década,

sem dó e sem piedade"



Os educadores de Rondon do Pará comeram o pão que o diabo amassou durante dez longos anos, e alinda tem uns gatos pingados, cerca de meia dúzia, que ainda estão sentindo saudade deste tempo de luto, descaso e desrespeito à própria educação, por isso não é hora de retroceder!




obs: aos profissionais de educação de rondon do pará, há duas estradas, uma é o retorno ao regime de greves, e o outro nós já conhecemos em tão pouco tempo, e caso esteja com saudade daqueles "belos e graciosos tempos", fique à vontade, mas só não venha levantar bandeiras e se vestir de luto pelas ruas da cidade, seria uma piada sem graça!


Agora em Rondon do Pará, até as salas de aula estão climatizadas, 
algo que seria impensável, improvável, impossível no passado!

Por isso, não podemos retroceder, antes, caminhar, seguir em frente, pois dias melhores virão!











domingo, 23 de setembro de 2012

XVI Feira Pan-Amazônica do Livro!




XVI Feira Pan-Amazônica do Livro!


Olhando Belém enquanto uma canoa desce um rio
E o curumim assiste da canoa um boing riscando o vazio
Eu posso acreditar que ainda da pra gente viver numa boa
Os rios da minha aldeia são maiores do que os de Fernando Pessoa!



Durante toda esta semana, precisamente do dia 21 a 30 deste mês, a cidade das mangueiras estará recebendo de bem com a vida, em paz com o mundo, e com muita vontade em ser feliz - de braços abertos, todos os amantes da literatura, no Hangar – Centro de Convenções Benedito Monteiro, onde ocorrerá o maior evento cultural do norte do país, a XVI Feira Pan-Amazônica do Livro, a quarta maior feira de livros do Brasil, mostrando ao mundo que nem só de carimbo vive o homem da Amazônia, especificamente, o ser de Belém do Pará, estando apta a receber durante uma semana de arte e cultura cerca de quinhentas mil pessoas.

Nesta edição, a terra de Nilson Chaves, Lucinha Bastos e Mahrco Monteiro, irá homenagear os escritores lusitanos, e toda riqueza estética oriunda das ameias de Saramago, Pessoa, Eça e Camões, cuja presença se fará através Lídia Jorge, Gonçalo Tavares e José Luis Peixoto, bem como, o lançamento do livro Convite à navegação – uma conversa sobre literatura portuguesa, da pesquisadora Susana ventura. Aos amantes da sete arte, presença marcante de diretores cinematográficos portugueses na Mostra de Cinema Português Contemporâneo, entre outros eventos artísticos através da comunidade lusitana, tais como, o guitarrista português Antonio Chainho, um dos mais conceituados músicos lusitanos.





A poética de Ruy Barata, um dos grandes poetas da Amazônia, abrirá espaço a grandes nomes da literatura brasileira, tais como, Ariano Suassuna, Martha Medeiros, Luis Fernando Veríssimo, Joca Terron e Paulo Sérgio Valle, uma verdadeira viagem ao mundo mágico das letras. Aos visitantes, haverá debates com escritores e críticos, seminários, oficinas literárias, leituras do vestibular, palestras, workshops, saraus, gincana literária, concurso de redação e shows culturais, não esquecendo, é claro, dos centenários dos escritores brasileiros Nelson Rodrigues e Eidorfe Moreira.

Então, fica o convite aos amantes das letras – “Vou te levar pra conhecer Belém, Sei que tu vais apaixonar também,Vou te levar pra conhecer o Ver-o-Peso, amor!”, pois, “Belém é assim, é tudo de bom e um pouco mais, mas este mais é você quem faz”, tomando muito cuidado com aquela máxima da Baía do Guajará, em que, “Chegou no Pará, parou! Tomou açaí, ficou”, mas se quiser ficar não tem problema nenhum, o Círio está logo ali, e a mãe de todos os paraenses, Maria de Nazaré, estará pronta a receber todos os visitantes de todos os cantos e recantos.


Profº. Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária PUC Goiás


Feira Pan-Amazônica do Livro 2012
Local: Hangar
Data: 21/09/2012 até 30/09/2012
Hora: 10h

sábado, 22 de setembro de 2012

XVI Feira Pan-Amazônica do Livro!



XVI Feira Pan-Amazônica do Livro!


Olhando Belém enquanto uma canoa desce um rio
E o curumim assiste da canoa um boing riscando o vazio
Eu posso acreditar que ainda da pra gente viver numa boa
Os rios da minha aldeia são maiores do que os de Fernando Pessoa!



Durante toda esta semana, precisamente do dia 21 a 30 deste mês, a cidade das mangueiras estará recebendo de bem com a vida, em paz com o mundo, e com muita vontade em ser feliz - de braços abertos, todos os amantes da literatura, no Hangar – Centro de Convenções Benedito Monteiro, onde ocorrerá o maior evento cultural do norte do país, a XVI Feira Pan-Amazônica do Livro, a quarta maior feira de livros do Brasil, mostrando ao mundo que nem só de carimbo vive o homem da Amazônia, especificamente, o ser de Belém do Pará, estando apta a receber durante uma semana de arte e cultura cerca de quinhentas mil pessoas.

Nesta edição, a terra de Nilson Chaves, Lucinha Bastos e Mahrco Monteiro, irá homenagear os escritores lusitanos, e toda riqueza estética oriunda das ameias de Saramago, Pessoa, Eça e Camões, cuja presença se fará através Lídia Jorge, Gonçalo Tavares e José Luis Peixoto, bem como, o lançamento do livro Convite à navegação – uma conversa sobre literatura portuguesa, da pesquisadora Susana ventura. Aos amantes da sete arte, presença marcante de diretores cinematográficos portugueses na Mostra de Cinema Português Contemporâneo, entre outros eventos artísticos através da comunidade lusitana, tais como, o guitarrista português Antonio Chainho, um dos mais conceituados músicos lusitanos.




A poética de Ruy Barata, um dos grandes poetas da Amazônia, abrirá espaço a grandes nomes da literatura brasileira, tais como, Ariano Suassuna, Martha Medeiros, Luis Fernando Veríssimo, Joca Terron e Paulo Sérgio Valle, uma verdadeira viagem ao mundo mágico das letras. Aos visitantes, haverá debates com escritores e críticos, seminários, oficinas literárias, leituras do vestibular, palestras, workshops, saraus, gincana literária, concurso de redação e shows culturais, não esquecendo, é claro, dos centenários dos escritores brasileiros Nelson Rodrigues e Eidorfe Moreira.

Então, fica o convite aos amantes das letras – “Vou te levar pra conhecer Belém, Sei que tu vais apaixonar também,Vou te levar pra conhecer o Ver-o-Peso, amor!”, pois, “Belém é assim, é tudo de bom e um pouco mais, mas este mais é você quem faz”, tomando muito cuidado com aquela máxima da Baía do Guajará, em que, “Chegou no Pará, parou! Tomou açaí, ficou”, mas se quiser ficar não tem problema nenhum, o Círio está logo ali, e a mãe de todos os paraenses, Maria de Nazaré, estará pronta a receber todos os visitantes de todos os cantos e recantos.


Profº. Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária PUC Goiás



Feira Pan-Amazônica do Livro 2012
Local: Hangar
Data: 21/09/2012 até 30/09/2012
Hora: 10h





Belém é assim...

Belém é assim,
aquela vontade danada
de pescar uma prosa no Ver o Peso
enquanto é manhã e ela não vem...
uma vontade boba de falar com as mangueiras da Nazaré
de namorar gostoso na Batista Campos
enquanto é manhã e ela não vem...
de pegar um coletivo de bobeira
só pra ver da janela a maninha passar
e o vai e vem das cuias de tacacás
enquanto é manhã e ela não vem...
de ouvir Lucinha, Chaves e Tapajós
no beral das Docas
ou bebendo mansamente açaí
com as palavras doces de barata, Paes Loureiro,
Belém é assim
depois das quatro ela vem
e vem gostoso e molhando tudo
quem sabe até abençoando
então, deixa molhar...
pois, Belém é assim,
é tudo de bom e um pouco mais,
mas este mais é você quem faz...

Robson Veiga





segunda-feira, 30 de julho de 2012

A crise da literatura comparada, segundo Wellek.



Um artigo científico seria capaz de abalar o mundo das Letras, sobretudo, o mundo da Literatura Comparada, ou o mundo do “estudo comparativo da literatura”, expressão, segundo o crítico austríaco René Wellek, a mais adequada, em se tratando de comparativismo, entre textos literários?


Todo trabalho crítico em relação à arte, tem em si uma metodologia em conformidade aos objetivos propostos em referência ao objeto de estudo. Assim, segundo René Wellek, numa comunicação realizada em 1958, durante o 2º congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada - “The crisis of comparative literature”, postula que “o mais sério sinal do precário estado de nosso estudo é o fato de que não foi capaz de estabelecer um objeto de estudos distintos e uma metodologia específica”, ao criticar os trabalhos de erudição literária, entregues ao factualismo, cientismo e do relativismo histórico do século XIX, nas mãos de Baldensperger, Van Tieghem, Carré e Guyard, estudiosos franceses, que sobrecarregaram a literatura comparada através de uma metodologia ultrapassada.

Segundo Wellek, “a tentativa de comprimir a literatura comparada em um estudo do comércio externo de literaturas”, foi o trabalho que fizeram Van Tieghem e seus seguidores, ao tentar a distinção da literatura comparada à literatura geral, interessando esta, pelos movimentos e estilos de várias literaturas, e confinando àquela, ao estudo de inter-relações, o que seria para Wellek como algo insustentável e impraticável, pois seria apenas o trabalho de tornar a literatura comparada na pequenez de uma mera subdisciplina, levando-a a se interessar apenas e tão somente pelas exterioridades a respeito da obra, ao estudo de fontes e influências, causas e efeitos, o que levaria “a tentativa de erguer cercas artificiais entre a literatura comparada e a geral”.

Para Wellek, o objeto de estudo da crítica seria a própria literatura, e não apenas, o estudo das inter-relações entre literaturas, propondo para isto, um reexame dos objetivos e métodos, ao admitir como objeto de estudo, apenas a própria literatura no bojo da erudição literária, opondo-se à distinção, preconizada pelas propostas clássicas, entre literatura comparada e literatura geral, ao considerar o comparativismo como uma “represa estagnada”, indagando, “Por que deveríamos distinguir entre um estudo da influência de Byron sobre Heine e o estudo do byronismo na França?”, reduzindo a literatura comparada à análise de fragmentos.

Segundo a pesquisadora Tânia Carvalhal, em seu conceituado livro Literatura Comparada, a crítica de Wellek está embasada nos princípios de três correntes teórico-críticas – o formalismo russo, a fenomenologia e o new criticism, que preconizavam a análise de acordo a imanência do texto literário, se rebelando contra o determinismo causal, cuja preocupação maior seria falar sobre literatura, sem a distinção entre literatura comparada e literatura geral, criticando assim, a separação entre crítica literária e estudos literários comparados.

Ainda no clássico livro Teoria da Literatura, editado em 1949, em parceria com Austin Warren, as preocupações de Wellek apontadas no polêmico artigo, “A crise da literatura”, já se faziam presentes, sobretudo, no capítulo V, intitulado “Literatura geral, literatura comparada e literatura nacional”, mostrando sua insatisfação com relação aos rumos tomados pelos estudos comparados, que ora se limitavam a investigar a migração de temáticas da literatura oral para a escrita, ora se preocupavam no relacionamento entre duas ou mais literaturas, ou ora tinham como preocupação maior os dados extraliterários, oposição que fazia Wellek por acreditar na concepção de literatura comparada como uma atividade crítica, sinônimo de crítica literária, admitindo o texto como o objeto centralizador de qualquer preocupação a estes estudos.

Para Carvalhal, cabe uma crítica às postulações de Wellek, sem é claro, desmerecer a revitalização proposta pelo crítico austríaco, ao estimular o comparativismo literário, sobretudo, aos alertas constantes relacionados aos estudos de fontes, influências e relações, como adverte Carvalhal, que “a literatura comparada, sendo uma atividade crítica, não necessita excluir o histórico, sem cair no historicismo, mas ao lidar amplamente com dados literários e extraliterários ela fornece à crítica literária, á historiografia literária e à teoria literária uma base fundamental”, convivendo no mundo das letras em se confundir, como reflexionava Wellek em seus estudos, arregimentando, este, mais o número de restrições do que soluções aos impasses que caracterizaram a dita crise da literatura comparada, ao recusar os estudos da Imagologia, como pretendiam Carré e Guyard, bem como a recorrência à História, ponto de vista da sociologia literária.

Quanto a estas duas refutações por parte de Wellek, a pesquisadora Tania Carvalhal propõe a leitura de dois bons livros, não previstos pelo crítico austríaco,  sendo eles, O brasileiro e o avesso de um personagem tipo, de Guilhermino César, e o livro Carcamanos e comendadores - os italianos de São Paulo, da realidade à ficção (1919-1930), de Mario Carelli.


Profº. Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária PUC Goiás

terça-feira, 17 de julho de 2012

Rapto de Memória



Para o leitor que está cansado do óbvio, da mesmice e do tradicional, querendo viajar por outras arestas literárias, beber de outras fontes literárias, a dica desta semana fica por conta do livro Rapto de Memória de Maria Teresinha Martins, Doutora em Teoria da Literatura, editado pela PUC Goiás em 2010, embora escrito no verão de 1998, contendo 77 páginas, divididas em quatro partes, tendo por prefácio, ninguém mais ninguém menos do que José J. Veiga, autor do brilhante livro de contos Os cavalinhos de platiplanto.

Logo nas primeiras linhas do romance - “Por um momento secular consegui despegar-me de meu corpo e flutuar em minhas legítimas aspirações”, o leitor é convidado a mergulhar num mundo de recordações poéticas, levado por cores à música original, por onde o eu-lírico se metamorfoseia em busca do paraíso perdido, deparando-se “com o rio que, disparado como fecha, percorria, atravessava o tempo e se ancorava em mansas baías”, captando o mundo de seus ancestrais em forma de poeticidade, cuja narrativa é uma caminhada frenética do Eu em transfiguração, marcada por uma perseguição temporal, por onde o ser renasce a cada instante, ficcionalizando o passado que se presentifica por imagens e cores, capaz de ouvir pássaros, pedras, flores e o vento, numa linguagem enlameada de arte, trançando sua história de vida entre as alternativas e as condicionais, sob a ática do reino da imaginação, que vê arte em tudo, num romance historiado em forma de crônica.

Numa mistura de gêneros que beira a escritura do romance “pós-moderno”, ora se delineando como um ensaio filosófico, “Existe o pós-moderno? Não faz diferença o sim ou não, a polêmica atualiza pontos, normas. Há a intenção de fazer um livro sobre nada e o livro do nada”; ora perpetuando como um poema em prosa, “A sombra da mangueira enternece a alma daquele que chora pelo rio da sua aldeia”, característica esta que assusta o olhar inocente do leitor tradicional por perturbar seu “horizonte de expectativas”.

  Neste romance ensaístico, o narrador-personagem ora assume a postura de um Eu que é um rio, que feito tempo, no correr das águas, se ancora na baía, tais como recordações, num jogo linguístico que beira aos grandes escritores, tais como Clarice Lispector; ora este Eu é o presente no correr das águas do Araguaia, cuja “grandeza está na profundidade do olhar de quem me vê”, pois, “não é preciso ser o maior rio do mundo para ser espelho dos céus, mas é necessário argúcia no olhar para captar as profundezas das águas, do ser, da vida”; ora é universo - poesia surreal, resgatando em paródia o canto de vida do guerreiro, e não mais de morte, pois além de ser “bárbara, primária”, era também urbana, pós-moderna, num “tempo sem tempo num espaço sem contorno”.

Em Rapto de Memória o leitor é inserido na latinidade de um ser tupi-guarani que se afirma e se nega ao som dos tambores afro-brasileiros, cujo desejo de “viver, sentir o presente como verdade, como instante único e imponderável”, se recupera na irrecuperabilidade do correr do rio que é tempo, “sem medo de ser feliz na cadeira de balanço, sem receio de viver sonhos e de ter ilusões: tecer a rede, esperar o amanhã”, na satisfação da arte, no encantamento pela vida, na leveza do sonho, na narrativa fragmentada, pois, “devagar apanho coisas, pedaços de acontecimentos, fragmentos de história”, apreendendo o real ao se retirar do próprio real através da imaginação, como postulado por Jean-Paul Sartre no livro Imaginação.

José J. Veiga escreveu no prefácio do livro ter gostado dos achados enigmáticos que enleiam a escritura de Rapto de Memória, “como quem acaba de descobrir verdades, tais como, fala enlameada de arte e se a vida é sonho, a arte é tudo”, que no bojo desta mistura de gêneros, num universo discursivo em fragmentação, se desenvolve assim como descreveu Saramago em um dos seus romances, pois, “A questão é só saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois”, e assim faz Maria Teresinha Martins naquilo que foi o seu primeiro livro ficcional.

Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária

sexta-feira, 22 de junho de 2012

"Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam"

O caríssimo leitor, durante o cotidiano, já se deparou com alguma imagem que lhe daria um belo romance? Quem sabe uma crônica, um conto, um poema? Pois, bem! Estando no restaurante O elefante, em Salzburgo, na Áustria, a convite de Gilda Lopes Encarnação, José Saramago se deteve diante de uma representação da Torre de Belém, juntamente com pequenas esculturas que enunciavam um certo itinerário, e ao indagar sobre aquilo, lhe disseram ser a representação da viagem que fizera um elefante indiano no século XVI, no ano de 1551, precisamente, percorrendo o trajeto entre Lisboa a Viena. Desta representação de um fato histórico, logo o pressentimento que levou Saramago a transpor numa linguagem literária, o que seria por ele publicado em 2008, como sendo, A viagem do elefante.



Uma das artimanhas de José Saramago a fim de atravessar sua pena nas escrituras literárias produzidas por ele foi beber da historiografia oficial portuguesa, na sua primeira fase como romancista, para depois recriar o passado histórico numa visão irônica, muitas vezes sarcárticas, tomadas por certa dose de humor, numa criticidade aguda em referência às verdades absolutas propagadas pelo discurso histórico,  conjugando com o pensamento de Oscar Wilde, quando este proferiu que "a única coisa que devemos à História é a tarefa de reescrevê-la", assim foi, como nos romances, Levantado do chão, Memorial do convento, O ano da morte de Ricardo Reis e História do cerco de Lisboa, e por último, A viagem do elefante, por onde este brilhante escritor lusitano "bebeu na fonte da História para recontá-la, dando vozes aos excluídos. Foi assim que ele substituiu o que foi pelo o que poderia ter sido", como salientou a crítica literária Mariana Cortez na revista Carta Capital, numa escritura literária levada ao condicional.

Em A viagem do elefante, cuja estrutura formal mais se apresenta ao formato de um romance, no entanto, ao aos olhos do próprio autor se assemelha a um conto, o narrador saramaguiano narra, ao recorrer à discursividade histórica, uma viagem que fizera um elefante indiano, Salomão, acompanhado por seu conarca, Subhro, de Lisboa a Viena, como um presente de casamento de D. João III ao arqueduque Maximiliano II, apresentando até certo ponto um enredo simples, em contraposição ao tom ensaístico,  como é feitio de toda discursividade romanesca saramaguiana, principalmente quando a temática envolve o relacionamento entre o trabalho do historiador em contraponto a do ficcionista, tendo como base comum a presentificação do passado, pois, "o passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam saber o que há por baixo delas”, e de repente, pode até sair um elefante, como a substituição de um não no lugar de um sim, pois tudo é possível na escritura saramaguiana.  

Para Saramago, a história é uma construção discursiva, e para tanto, ela é parcelar e parcial, seletiva e discriminatória, tendo"razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram", assumindo aquilo que postulava a crítica canadense Linda Hutcheon com relação à metaficcção historiográfica, cujo objetivo não era negar a história, mas "introduzir nela pequenos cartuchos que façam explodir o que até então parecia indiscutível: por outras palavras, substituir o que foi pelo que poderia ter sido", como propagava o próprio Saramago em seus cadernos.

O termo viagem para Saramago significa autoconhecimento, tendo como estrada a percorrer, o próprio discurso histórico, que por ele, é dessacralizado, esmiuçado, jogando por terra verdades estabelecidas pela história, por onde o leitor deve caminhar com um olhar não ingênuo, mas crítico, mesmo sabendo se tratar de uma escrita ficcional, pois para Saramago o discurso histórico "só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido como histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poeria ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade".


Na escritura de A viagem do elefante, podemos notar mais uma vez o cruzamento entre o discurso literário a permear o discurso histórico, mas desta vez, com uma pitada a mais de humor, e como sempre, uma tonalidade de ironia, por onde "uma vez mais Saramago rema ou narra contra a maré em sua intenção de desocultar a realidade do século XVI em seu romance", como postula o crítico José Ornellas.



Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária
PUC Goiás








sábado, 26 de maio de 2012

Por que será que em Rondon do Pará não houve greve na Educação nos últimos dois anos?


Na primeira década deste século, era normal em época de planejamento escolar, sobre as atividades relacionadas ao ano letivo, a discussão acerca de quando seria a greve dos profissionais de educação na rede municipal de ensino, ou em maio, em junho ou mesmo em agosto, tal era o desrespeito com que os gestores públicos municipais tratavam os servidores da educação em época de negociação sobre o reajuste salarial, embora o sindicato sempre chamava à mesa, a partir de janeiro, tendo como resposta, nos meses subsequentes, a famosa frase, “ainda estamos analisando”. E como uma massa de pão, a paciência dos servidores educacionais, em relação ao desprezo concedido pelos gestores municipais na sequência dos meses, entrava numa crescente como fora um trem sem maquinista, ou seja, greve na certa!




Felizmente, nos últimos dois anos consecutivos, essa dura e triste realidade mudou consideravelmente. Não houve estado de greve. E aí, ficamos com a indagação que leva o título desta crônica. Por que será que não houve regime de greve nos últimos dois anos na rede municipal de ensino no município de Rondon do ParáSerá que a falta de greve nestes dois últimos anos tem a ver com o aquecimento globaPor incrível que pareça, Rondon do Pará depois de dez longos anos dourados, resolveu mudar de número, e de repente, a greve findou...



Não só o regime de greve e repressão tomou outra rota, mas vimos uma mudança radical nestes últimos dois anos em relação ao tratamento mais hospitaleiro entre a casa verde e os profissionais da educação: repasse salarial de acordo com as normas do FUNDEB, aprovação do plano de cargo, abonos salariais, reformas das escolas municipais, que por sinal, estavam todas sucateadas, abandonadas, merenda de qualidade, e principalmente, o respeito e a consideração que merece todo servidor que trabalho na educação, e isso, é digno de nota!




Então, digamos que não foi apenas uma simples mudança de número, mas uma mudança de atitude comportamental de gestão, de comprometimento, sabendo-se agora, que o gestor é apenas um servidor com mandato pré-estabelecido, e que os educadores, são eternos servidores, que tenha sol ou chuva - sempre a disposição de vê rolar num rosto de criança, um sorriso depois da primeira leitura...

Então, não creio ser a hora de retroceder, e sim, de dá continuidade por uma estrada que novamente resolveu dignificar a carreira do magistério, pois, não podemos esquecer da respeitabilidade na época do governo Matildo Dias, e que logo depois foi interrompida drasticamente por uma década perdida, porém, agora, reestabelecida pela vontade política em devolver a "César o que é de César".

Assim, como o título daquele belíssimo filme britânico, protagonizado por Sidney Poitier, agora, a gestão municipal tem procurado, nestes últimos dois anos, levar em consideração, uma relação profissional, que tenha em seu perfil, sobretudo,  “ao mestre com carinho”. 


Profº. Robson Luiz Veiga

OBS:

Parabéns à  atual gestão municipal, 
que não tem medido esforços quanto ao desenvolvimento educacional
 em Rondon do Pará, em tão pouco tempo de gestão, 
embora, sabemos todos, que ainda há muito o que se fazer para chegarmos a ter em nosso município uma educação verdadeiramente de qualidade, 
tendo por saber, a vigência e o desenvolvimento de três pilares a seguir: 
remuneração profissional de qualidade aos servidores da educação, 
condições adequadas para as práticas educacionais e 
 formação continuada permanente.

   









Ao mestre com carinho


Aqueles dias de estudante,
De contar historias
e de roer unhas, se foram
Mas em minha mente
Sei que sobreviverão para sempre, sempre
Mas como vc pode agradecer alguém
Que te tirou dos lápis de cera para o perfume
Não é fácil, mas eu vou tentar

Se você quisesse o céu, eu escreveria sobre o céu com letras
Que planariam a mil pés de altura
Ao Mestre, com carinho

Chegou a hora
De fechar os livros
E os olhares demorados devem acabar
E enquanto eu os deixo
Eu saberei que estou deixando meu melhor amigo
Um amigo que me ensinou o certo do errado
E o fraco do forte
É bastante para aprender
O que, o que eu posso lhe dar em troca?

Se você quisesse a lua eu tentaria fazer um começo
Mas eu gostaria que você deixasse lhe dar meu coração
Ao Mestre, com carinho

(Lulu) tema do filme Ao mestre com carinho, clique abaixo e curta clip





quinta-feira, 15 de março de 2012

"Que farei com este livro?"


Tal indagação que temos por título, é a denominação da segunda peça teatral escrita pelo único prêmio nobel em literatura, José Saramago, editada em 1980, em comemoração aos quatrocentos anos da morte do maior poeta lusitano de todos os tempos, Luiz Vaz de Camões.

Nesta peça, Saramago brinca com as palavras ao relacionar o real ao ficcional, marca registrada em seus escritos literários, numa "reflexão que não se exaure diante do que não está explicado", como postula a professora Cínthia Renata Gatto Silva, amante e pesquisadora das inquietudes saramaguianas - fazendo surgir através da pena um Camões desconhecido, que traz no bojo apenas "papéis com versos", não aquele em bronze postado na praça em Lisboa, mas um Camões que fala, que tem voz e autenticidade, ambientada nos últimos três anos que antecederam a publicação do célebre poema épico, Os Lusíadas, após o retorno do poeta lusitano da Índias.

Saramago apresenta nesta peça, uma das cinco produzidas por este escritor ao passear pelas veredas da dramaturgia, ao tematizar a publicação da obra de arte num mundo coberto pela censura e a inquisição, a representação histórica e biográfica de Camões, por onde o leitor/espectador é convidado, pela via da ironia que se abre na obra, a "promover uma reflexão sobre o presente, a partir de uma reavaliação do passado", segundo o professor e pesquisador Cláudio de Sá Capuano, nome respeitado na atualidade em relação à dramaturgia saramaguiana.

A mesma indagação que fizeste o Camões saramaguiano no palco foi também a mesma que ouvi de certos colegas num certo dia quinze de outubro, ao receber de presente da Secretaria Municipal de Educação um belo livro sobre práticas pedagógicas em sala de aula, "Hum, logo um livro, porque não colocaram um abono pra gente na conta, afinal, que farei com este livro?".

Uns, após o evento esqueceram o livro em cima da mesa, outros o levaram pra casa e o prensaram na estante, uns mais ainda deram as crianças a brincar no quintal, e alguns poucos o jogaram na primeira lata do lixo. Raríssimos foram aqueles que leram suas páginas. E isto não é uma lenda, é um fato, uma constatação, que aconteceu, e poderia acontecer, e como bem acontece em todas as escolas brasileiras, seja pública ou particular.

Infelizmente os profissionais em educação não se interessam muito pelo ato de ler, ainda mais quando a leitura tem alguma coisa a ver com suas próprias práticas diárias. E antes alguém se esbraveja com o texto, lembremos que toda regra tem exceção.

Quanto à literatura, deixemos pra lá. Arte é coisa não muito levado a sério em ambiente escolar, e quando há, apenas pra matar o tempo, pois arte ainda é encarado como alguma coisa de quem não tem o que fazer.



Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária
PUC Goiás

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

"O amor vence tudo, vamos todos ao amor!"


"O amor vence tudo, vamos todos ao amor!"


A arte é o espelho da pátria.
O país que não preserva os seus valores culturais, jamais verá
a imagem da sua própria alma.
[Chopin]



O verso “Omnia Vincit Amor et nsa cedamus amori, escrito pouco antes de Cristo pelo poeta latino Virgílio, autor do poema épico Eneida, um clássico da literatura universal, faz parte do poema Eclogas, cuja tradução tem alguma coisa a ver com “O amor vence tudo, vamos todos ao amor”.

Com este verso, o poeta mato-grossense Daufen Bach, abre o seu sítio virtual de escritos em poéticos, ao considerar que “muitos acreditam ser, esta frase, uma utopia de Virgílio, eu prefiro acreditar que o amor sempre vencerá ou, que pelo menos, irá nos redimir...”, confessa Bach, deixando uma clara evidencia do que permeará a temática dos seus poemas.

Muito desta filosofia está diretamente ligada aos versos escritos por Bach, tendo o amor uma temática recorrente em seus escritos, bem como em seus pensamentos, e como poeta apaixonado que é, principalmente pela vida, carrega em seus traços na alma um dos mais belos escritos do poeta chileno Pablo Neruda: “Um homem só encontra a mulher ideal quando olhar no seu rosto e vê um anjo, e tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam”.

Encontramos na lírica deste poeta do centro-oeste brasileiro, variadas ruas temáticas folheadas em versos, que ora se encontra um Bach regionalista, que “Não se nega a vida porque ela é dura, não se nega a morte, por ser ela, de certeza, a certeza mais convencida”; ora existencialista, ao brincar com as palavras “Não quero ser nada, apenas ter a compreensão da estada nessas coisas que me roubam o tempo e a vida, ter a minha paz de aço antigo, de ácido e, mesmo sendo o pastor que vigia do alto da sebe o seu rebanho, rastejar nas coisas corriqueiras”; ora romântico, em versos metalingüísticos tais como, “às vezes, a poesia me irrita, brinca comigo, me afoga, me salva e me afoga de novo! é uma sandice, eu sei! porém, ela me completa, me traz, toda hora, a tua imagem e não me deixa miserável, mendigo...”; ora sensual, num brincar de corpos famintos em gozo eterno, ao escorregar da pele em fúria nas palmas das mãos; e por vezes uma poética apimentada em forma de crítica social, por onde “ele jantou chá de folhas de laranja e a noite de sumos ácidos engoliu o toco de vela”, como nos versos “Dos dias não fortuitos”.

A intertextualidade tão cultivada pela pesquisadora búlgara Julia Kristeva é marca registrada num dos belos poemas de Daufen Bach, “Aboiá um verso pra iludir o caminhar”, quando o mesmo dialoga com outro belíssimo poema do consagrado poeta das caatingas Patativa do Assaré, “Vaca estrela e boi fubá”, versos cantarolados pelo cearense Raimundo Fagner, ainda no início de sua carreira musical. Da mesma forma, o intertexto também se faz presente em outro belo poema de Bach, que dialoga com Manuel Bandeira, no tão famoso “O bicho”, numa crítica social que retrata o cotidiano do homem nas cidades grandes, na qual a coincidência perpassa nos versos, agora, não em forma de metáfora, mas como um fato. Embora a literatura não tenha a função de denunciar as injustiças sociais, como conceitua o crítico Harold Bloom, dando-lhe apenas o valor estético, não podemos fugir das amarras que amarram o poeta enquanto homem que produz o seu fazer poético em meio a tudo que lhe atravessa aos contornos do cotidiano. Afinal, a poesia é um construto humano.

Daufen Bach é um daqueles, cuja lírica, apesar de ainda não ter materialidade em forma impressa como tiveram Patativa e Bandeira, é virtuosamente acolhido pelo mundo virtual em “Era para ser canção”, cujo canto se encanta em muitos recantos e lares daqueles que amam a arte do pensar poético, pois como diria Bethânia, o homem precisa de poesia.


Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária
PUC Goiás

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"Vamos Fazer de Rondon do Pará Uma Casa de Leitores"

Coitada da sociedade cuja premissa não seja a educação. Assim, entendendo que todo o processo educacional é rastreado ao solo da leitura, coitado do povo cujo hábito de leitura não esteja pautado em seu cotidiano. E creio, que em Rondon do Pará, ainda estamos engatinhando quanto ao hábito de leitura no círculo educacional. Primeiro porque não temos um programa sério nesta temática cuja nascente seja o próprio ambiente escolar, haja vista que grande parte dos nossos educadores não têm vício da leitura conjugado em suas veias, pois os mesmos, não foram educados com base na leitura, e quando digo educados à leitura, não me refiro à leitura obrigatória, tanto a do vestibular, quanto àquelas aulas chatas em que o estudante é obrigado a engolir a seco as linhas literárias sem nenhum bom motivo aparente, para depois, remexer aos exercícios questões aleatórias à própria leitura por antes mastigada; segundo, porque não temos à cultura em nosso município, desde a Secretaria de Educação até a mais distante das escolares rurais. 

Não resta dúvida de que precisamos nos ambientar dentro de uma cultura cujo fator primordial seja a leitura. Para isso, primeiramente a Secretaria de Educação, conjuntamente com a Secretaria de Cultura, tem que privilegiar em seus programas o hábito da leitura, seja na escola, ou na própria residência do estudante. Logicamente, que é um processo lento, que se aplicado eficientemente dentro das escolas desde à infância e seguindo aos anos vidouros, em dez anos possamos dizer que Rondon do Pará seja verdadeiramente uma Casa de Leitores. 

De cara temos um entrave: os nossos educadores não gostam de ler, isso, contabilizando, é claro, a maioria dos profissionais em educação, desde os coordenadores, passando pelos diretores, até chegarmos aos professores. Levemente encontramos aqui e acolá um solitário professor lendo algum romance. Não que seja um romance daqueles, mas já é um bom começo. Então, se não temos um registro de educadores amantes da arte literária, como teremos uma plateia de crianças e jovens inocentes a educar à base da leitura? Mas para isso, poderemos obter em Rondon do Pará a cultura dos Encontros, Colóquios, Seminários, Congressos, cujo tema seja sempre dedicado à leitura. E aí, surge sempre um engraçadinho a perguntar: e com qual recurso faremos isto e aquilo? Como se o FUNDEB não fora feito justamente pra este fim: o desenvolvimento educacional.

Que tal começarmos com duas Feiras Literárias por ano... Que tal começarmos por um Feira de Livro nas escolas por semestre... Que começarmos por Exposição de Livros no pátio escolar uma vez por mês... Que começarmos por um Sarau Literário por semana nas escolas... Que tal começarmos com um Concurso de Poesia por dia na hora do recreio... Que tal pelo menos começarmos a discutir o hábito da leitura entre nós educadores... Pois já cansei de ouvir nos corredores escolares uma frase besta que não cansa em conviver no cotidiano educacional: também, eles não gostam de ler? Mas, eles quem? Primeiro devemos dizer: também, nós não educamos nossos alunos ao hábito da leitura. Dizem que filho de peixe peixinho é...

O nosso estudante é tão inocente, que se chegarmos na sala de aula com uma revista na mão, ele logo irá pedir pra ler... Se chegarmos com um livro nas mãos, ele logo irá pedir emprestado... Se chegarmos com uma palavra cruzada, ele logo irá pedir uma caneta pra fazer... 

Na Escola Estadual de Ensino Médio Dr. Dionísio Bentes de Carvalho criamos durante três anos um certo hábito de leitura, que seguramente acompanha um grande número de estudantes, que mesmo longe, hoje estudando uma graduação ou bacharelado, nos procuram em tempos de férias, "professor, tem um livro aí pra emprestar pra gente...". Com isso, saímos em 2008 ao número expressivo na época de trezentas e sessenta e oito leituras não-obrigatórias; em 2009, apresentamos mil e duzentas leituras não-obrigatórias; e em 2010, mil e oitocentas leituras não-obrigatórias: um recorde no estado do Pará. Sem falar, que sessenta por cento das leituras saíram da minha própria estante, pois carrego comigo o seguinte lema: "livros não foram feitos a ficar nas estantes; antes, porém, passar por mãos e mãos", pois essa era a cultura de antigamente, a troca de livros entre leitores assíduos, e poderíamos, num futuro não tão distante, regatá-la aos nossos olhos, isso é, se mudarmos nossas práticas enquanto educadores.

Alguns, os mais céticos, poderiam dizer: são apenas palavras ao vento, porém, que seja um vento forte, daqueles capazes de arrebentar a ignorância dos fracos, e imprimir, mesmo que seja numa cidadezinha do interior, o hábito da leitura, para que no futuro, possamos nos orgulhar do trabalho que outrora fizemos. Essa deveria ser a nossa meta: Fazer de Rondon do Pará Uma Casa de Leitores. Vamos nessa?

Robson Luiz Veiga
Mestrando em Literatura e Crítica Literária
PUC Goiás