
Talvez
a resposta esteja no fato de não termos nenhum filme brasileiro como ganhador
da estatueta. Seria, então, uma tal incompetência em relação à criatividade dos
nossos produtores, diretores e roteiristas? Creio que não! Talvez, sim, falta
de atrevimento, ou quem sabe, a leitura dos clássicos, ou melhor, a releitura.
O
engraçado nisso tudo, é que o romance Angústia foi elaborado em seu discurso
ficcional, todo moldado às técnicas cinematográficas em seu fluxo narrativo,
através dos processos de rememoração que incendeiam a obra. Segundo o crítico
Silviano Santiago, Angústia é atravessado por três processos de rememoração,
sendo os dois primeiros executados pelo narrador-personagem Luís da Silva, e o
terceiro, pelo próprio texto.
No
primeiro processo de rememoração, denominado de flashback, acontece do primeiro
capítulo até o penúltimo, por onde, o primeiro parágrafo ao ser narrado,
corresponde no linear, ao fim do enredo, momento em que o narrador-personagem
se levanta após um longo tempo. O segundo processo de rememoração, de acordo
com o crítico, é produto da memória de Luís da Silva, cujo discurso se
apresenta no texto em forma de fragmentos, em micro-narrativas autobiográficas
revelando as experiências do personagem ao longo da sua infância e adolescência
na zona rural nordestina, onde “a
lembrança dos acontecimentos recentes na capital é alicerçada e, ao mesmo
tempo, quebrada e explicada pela lembrança de acontecimentos e de figuras
humanas do antigo mundo sertanejo, dominado pelos coronéis”, momento em que
se funde passado, presente e futuro. Já o terceiro processo de rememoração é
arquitetado pelo próprio texto, denominado de interno em forma da parataxe, em
frases justapostas, “em que pouco sentido
da frase anterior é carreado pela frase seguinte”, como admite Santiago,
bem como da superabundância textual, no ir e vir de palavras e frases dentro do
tecido narrativo.
O
que difere o romance Angústia às demais narrativas de Graciliano, bem como, o
classifica como subversivo ao cânone da literatura tradicional, o condicionando
como moderno, é o fazer poético que se instaura em seu discurso, pois, se caso
fosse constituído num fluxo narrativo linear, apenas os fatos que dão vida ao
enredo, como numa sequência lógica: a paixão por Marina, a punição do amante e
a autopunição, seria tal romance apenas mais uma entre as variadas produzidas
no início do século vinte.
Assim
como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, Graciliano Ramos norteia o seu fazer
literário tendo como peça de engrenagem principal, a própria linguagem, na exigência
de um leitor perspicaz, como observa a professora Maria Aparecida Rodrigues,
Drª em Teoria Literária, em seu livro Angústia Selvagem, ao r o fluxo da
linguagem aliando-se à técnica do cinema no fazer poético Graciliano, onde “o texto funciona como recaptulação ou
lembrança, num movimento circular entre presente, passado e futuro, com a
finalidade de comunicar e expressar”, em imagens flutuantes que se revelam
ao longo do romance.
Ah,
como seria bom se este livro caísse nas mãos do espanhol Pedro Almodovar... Já
notaram o que ele fez na sua última película, “A pele que habito”, com Antonio
Banderas. Imagine agora o que ele faria com o romance Angústia, que embora não
tão aclamado tanto quanto Vidas secas, poderíamos dizer que é aquele que
carrega em si um maior valor literário quanto à sua construção lingüística.
Pagaria
pra ver este belo romance na telona. E você, caro leitor?
Robson
Luiz Veiga
Mestrando
em Literatura e Crítica Literária